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A importância da Organização do Quadro Social para a Cooperativa

Você investiria em um empreendimento que desconhece? Certamente sua resposta a esta indagação será não.

Para resguardar a integridade e valores, as organizações societárias requerem uma estrutura de governança que permita que os objetivos não sejam desviados, para isso, criam métodos e ferramentas para comunicar, informar e interagir com os seus sócios, a exemplo das Cooperativas e Empresas de sociedade anônima. No mercado de capitais as empresas com maior valor de mercado, além de ter diferenciais competitivos, apresentam níveis ótimos de governança, transparência, responsabilidade socioambiental e resultados financeiros positivos.  As empresas abertas listadas na Bolsa de Valores no Brasil, são obrigadas a dispor de uma aérea responsável pelo Relacionamento com os Investidores (R.I). Segundo o Instituto Brasileiro de Relações com os Investidores (IBRI), o R.I é o conjunto de atividades, métodos, técnicas e práticas que, direta ou indiretamente, propiciem a interação das áreas de Contabilidade, Planejamento, Comunicação, Marketing e Finanças, com o propósito de estabelecer uma ligação entre a administração da empresa, os acionistas e os demais agentes que atuam no mercado (IBRI, 2020).  O objetivo do R.I é permitir aos investidores e potenciais investidores tomar decisões a partir do fornecimento de informações iguais e disponibilizadas simultaneamente para todos.

As premissas da boa governança como transparência, equidade, prestação de contas e responsabilidade corporativa são comuns a todas as organizações societárias, e em uma Cooperativa não é diferente. Por ser uma sociedade de pessoas, com forma e natureza jurídica próprias, pautados em valores e princípios legitimados socialmente, uma Cooperativa carrega diversas características que as diferenciam de empresas privadas. Nesse sentido, os instrumentos de relacionamento, interação e comunicação com os seus sócios devem buscar aumentar as relações econômicas e fortalecer os princípios cooperativistas, para garantir assim maior credibilidade e sustentabilidade institucional.

Na Cooperativa as relações são sustentadas pela credibilidade, e esse importante atributo depende de confiança, informação e conhecimento. Só o fato de uma pessoa associar-se a uma cooperativa ou usufruir um produto ou serviço, não lhe confere fidelidade e nem conhecimento sobre cooperativismo. Esses conhecimentos são adquiridos no cotidiano através de reuniões, encontros, seminários, diálogos, cursos, pré assembleias, assembleias bem como interagindo e acessando a informações através das ferramentas tecnológicas.

 A doutrina Cooperativista é centenária e as formas de organização do quadro social vão modificando com o tempo conforme as transformações societárias. O Cooperativismo brasileiro cresceu muitos nos últimos 30 anos e esse crescimento vem acompanhado com alguns desafios, o que têm sido pauta da agenda nos Conselhos de Administração, nos quais podemos destacar: 

  • Pouca participação e integração dos associados; 
  • Desconhecimento por parte dos associados, do que é realmente a cooperativa, do que ela representa, bem como dos serviços por ela prestados;
  • Dificuldade dos dirigentes e colaboradores em conhecer as necessidades e anseios dos associados e seus familiares;
  • Baixa fidelização dos cooperados
  • Dissolução entre os objetivos da cooperativa e as reais necessidades do quadro social.
  • Crescimento do Quadro Social
  • Crescimento da aérea de abrangência através fusão, incorporação e expansão.

Esses desafios, se não levados a sério e como prioridade pelos Conselhos de Administração, podem causar sérios problemas futuros para a sustentabilidade da Cooperativa. Organizar o quadro social é defini-lo e estruturá-lo de forma a estabelecer um processo sistemático e permanente de informação, comunicação e integração entre os associados, deles com a cooperativa e vice-versa, realizando, assim, a verdadeira cooperação entre as partes interessadas. 

A Organização do Quadro Social (OQS) surgiu em meados da década de 60 através de experiências em cooperativas agropecuárias, e pelo êxito da estratégia se expandiu e aperfeiçoou se com o crescimento do setor no Brasil adaptando as múltiplas realidades e necessidades. 

 A OQS emerge como uma estratégia de governança para aumentar a participação e controle democrático na Cooperativa, onde é criado uma instancia consultiva e não deliberativa para participação dos cooperados além das instancias tradicionais como assembleia geral, conselhos de administração e fiscal (VALADARES, 2005). É através da OQS que os associados permitem que o Conselho de Administração conheça os seus problemas, anseios e demandas, bem como a sua contribuição na busca de soluções. É também através dele que a administração conversa com os associados levando a eles seus planos de trabalho, desafios, produtos, serviços e informações sobre a sua cooperativa e, juntos, procuram encontrar a solução de problemas, trazendo, assim, melhorias para associados e cooperativas. 

As Organizações do Quadro Social no Brasil têm sua trajetória marcada por diferentes métodos, seja através de organização em núcleos, comitês, colegiados, conselhos, comissões, grupos de associados ou outras formas de organização do quadro social. A compreensão de OQS são refletidos e debatidos a partir das contribuições de diversos olhares a partir das experiências locais, que foram construídos e debatidos de acordo com a realidades e necessidades especificas de cada singular. Mas apesar da diversidade de perspectivas, a essência é possibilitar a participação dos Cooperados na dinâmica da cooperativa, levando-o a vivenciar o princípio cooperativista da gestão democrática, caracterizando assim um trabalho de caráter educativo.

É necessário que as Cooperativas brasileiras institucionalizarem esse processo, inserindo nos seus estatutos sociais, criando áreas e delegando para profissionais técnicos responsáveis, buscando assim um processo continuo e estratégico na governança cooperativa.

Nesse processo, a OQS ganha relevância, dando suporte às atividades das Cooperativas no seu relacionamento com os sócios. Cabe as Cooperativas através da OQS atuar simultaneamente em dois sentidos: levando informações aos seus cooperados e trazer o retorno (feedback) que irá mostrar as demandas e necessidades desses públicos.  É um processo de retroalimentação, onde todos os atores envolvidos contribuem para o desenvolvimento da cooperativa ao mesmo tempo que contribui sua atividade econômica particular e também com a comunidade.

Considerando que o R.I e OQS são instrumentos que as organizações societárias criam para terem mais credibilidade com seus sócios, investir nelas é fundamental para o sucesso institucional. No Cooperativismo, observando suas singularidades, realizar ações de relacionamento e educação com o quadro social são fundamentais para conseguir cumprir com êxito sua missão institucional, princípios e valores, onde a OQS se apresenta como uma estratégia necessária na governança cooperativa. O resultado desse esforço é o aperfeiçoamento das práticas de governança para o melhor atendimento das necessidades dos cooperados, consequentemente o aumento da credibilidade. Assim, investir em formas de relacionamento inovadoras, utilizando também os recursos tecnológicos disponíveis, são essenciais para remodelar relação com os cooperados e garantir assim o desenvolvimento sustentável das Cooperativas e simultaneamente, promover o crescimento econômico e inclusão social nas localidades inseridas. 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

INSTITUTO BRASILEIRO DE RELAÇÕES COM INVESTIDORES – IBRI (São Paulo). O QUE É RI? 2020. Disponível em: http://www.ibri.com.br/educacao-epesquisas/o-que-e-ri. Acesso em: 24 mar. 2020.

VALADARES, J. H. Participação e poder: o comitê educativo na cooperativa agropecuária. Lavras: Ufla. 1995. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Administração Rural da Universidade Federal de Lavras, 1995.

______. Estratégias de educação para a cooperação. Rio de Janeiro: FGV; MBA em Gestão Empresarial de Cooperativas, 2009.

Wellington Alvim da Cunha

Mestre em Administração pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), Analista de comunicação e relacionamento da Cresol e Professor do MBA em Gestão Estratégica em Cooperativas da PUC MG