O sindicalismo e o cooperativismo nasceram de uma mesma matriz histórica: a luta dos trabalhadores contra a exploração, pela dignidade e pela participação ativa nos rumos do trabalho e da economia. Entretanto, ao longo do tempo, seguiram caminhos distintos, por vezes paralelos, por vezes divergentes. Enquanto os sindicatos se organizaram para a defesa dos direitos trabalhistas frente ao capital e ao Estado, as cooperativas buscaram construir alternativas econômicas baseadas na autogestão, na democracia e na solidariedade.
1. Convergências históricas
Ambos os movimentos compartilham princípios fundamentais:
Solidariedade: a ideia de que a união fortalece e possibilita conquistas coletivas.
Democracia: participação ativa dos associados ou sindicalizados nas decisões.
Luta contra a exploração: tanto sindicatos quanto cooperativas se opõem à precarização do trabalho e à concentração de poder econômico.
No Brasil, experiências como as cooperativas de produção formadas por operários desempregados na década de 1990 e o movimento de economia solidária surgido nos anos 2000 mostraram que a articulação entre sindicatos e cooperativas é não apenas possível, mas necessária.
2. Tensões e desafios
Apesar das convergências, há tensões históricas:
Enquadramento legal: sindicatos representam trabalhadores assalariados; cooperativas, por sua natureza, não têm relação empregador-empregado, o que gera conflitos na aplicação da CLT.
Medo da precarização: sindicatos temem que cooperativas sejam usadas como subterfúgios para burlar direitos trabalhistas (falsas cooperativas).
Falta de diálogo estruturado: ainda são raras as instâncias permanentes de articulação entre as duas forças.
3. O sindicato das cooperativas
Surge, então, uma proposta inovadora: criar um sindicato específico das cooperativas e de seus associados, que represente os interesses desse setor no diálogo com o Estado e o mercado. Esse sindicato poderia:
Garantir direitos sociais e previdenciários aos cooperados sem descaracterizar a autogestão.
Defender o modelo cooperativo contra fraudes que usam falsas cooperativas para reduzir custos trabalhistas.
Promover formação sindical e cooperativista integrada, fortalecendo o poder de negociação e a consciência coletiva.
Esse movimento teria papel fundamental para consolidar a Democracia da Cooperação, conceito que defendo como alternativa socioeconômica para o século XXI. Ele se baseia na intercooperação, na gestão democrática e na integração de sindicatos, cooperativas e movimentos sociais.
4. Caminhos para o futuro
Para avançar, é preciso:
Revisar marcos legais que não reconhecem as especificidades da autogestão.
Construir pactos de solidariedade entre centrais sindicais, federações cooperativistas e o movimento de economia solidária.
Inserir a proposta na agenda política e social, garantindo voz no debate sobre trabalho decente e desenvolvimento sustentável.
Entre sindicatos e cooperativismo não deve ser de antagonismo, mas de aliança estratégica. Diante da crise do emprego formal, da ascensão da gig economy e da concentração de riquezas, a união do sindicalismo combativo com o cooperativismo autogestionário pode ser a chave para um novo paradigma de trabalho e economia, baseado na justiça social e na participação democrática.