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Por trás do copo de leite

Minas Gerais é líder nacional da produção de leite, um protagonismo explicado pela tradição. A pecuária leiteira acompanhou a ocupação do estado e ajudou a organizar sua economia. O clima e o relevo, por sua vez, moldaram áreas propícias às pastagens, que se espalharam pelo interior. Pouco a pouco, a atividade se consolidou nas propriedades familiares. E onde tem gente produzindo e querendo crescer, tem cooperação. Um em cada cinco litros de leite produzidos no estado passam por uma cooperativa. Hoje, o cooperativismo movimenta R$ 19 bilhões e assume papel direto na construção do futuro da cadeia láctea brasileira.

Neste 1º de junho, Dia Mundial do Leite, o momento é de reflexão — a força do nosso leite convive com uma pressão que não pode ser ignorada. Desde 2009, o Brasil sofre com o desequilíbrio da balança comercial de leite e derivados. Recebemos de países vizinhos produtos que carregam condições comerciais pouco transparentes, com formação de preços nem sempre clara e vantagens de origem que não encontram paralelo na realidade enfrentada pelo produtor brasileiro. Ao chegarem às nossas prateleiras, muitas vezes acompanhados de benefícios fiscais, esses produtos absorvem parte da demanda que poderia ser atendida pelo leite produzido aqui mesmo, nas fazendas brasileiras, ampliando a pressão sobre uma cadeia que já convive com custos elevados de insumos, como ração e suplementação, gargalos tributários e desafios logísticos.
 
Acredito que o Brasil precisa estar integrado aos mercados globais, mas também precisa de políticas de importação que zelem pelo produtor nacional e ofereçam condições justas para competir e permanecer na atividade. Defender o leite brasileiro é defender renda, alimento, desenvolvimento regional e a continuidade de uma cadeia presente em 98% dos municípios no Brasil, que sustenta milhares de famílias no campo, emprega em torno de 4 milhões de pessoas e ocupa um espaço relevante na mesa do brasileiro.
 
Para nós, mineiros, o fortalecimento da cadeia láctea significa preservar uma das atividades agropecuárias mais tradicionais do estado, presente em 216 mil propriedades rurais. Significa manter a renda circulando no interior, tanto pelo emprego direto de 1,2 milhão de pessoas, quanto pelo efeito que essa renda gera no comércio local, nos serviços e na própria comunidade. É cuidar de um segmento que responde por cerca de um terço da receita da pecuária estadual e uma das principais fontes de receita do agronegócio mineiro.
 
A permanência do produtor rural no campo deve estar no centro dessa discussão. O número de pecuaristas que vendiam leite caiu 32% em pouco mais de uma década, segundo os dois últimos Censos Agropecuários. Aqui, em Minas, quase 29 mil deixaram a atividade no período. Precisamos trabalhar para manter os pastos cheios, as matrizes leiteiras saudáveis, a produção aquecida e a pecuária leiteira viável e atrativa para a próxima geração. E precisamos investir no beneficiamento — como fazem as cooperativas — para aumentar o valor agregado do nosso leite e levar a produção mineira para mercados dentro e fora do Brasil.
 
É preciso mais responsabilidade com o nosso leite. Quando essa cadeia enfraquece, Minas não perde apenas produção. Perde renda no interior, empregos, sucessão no campo, capacidade industrial e parte de sua própria identidade produtiva. Por trás de cada litro há terra, rebanho, investimento e famílias. Defender o leite é defender o produtor rural que mantém viva uma das cadeias mais importantes de Minas Gerais.
 
 
*Entidade representativa das cooperativas de Minas Gerais

Ronaldo Scucato

presidente do Sistema Ocemg

 

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