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Resiliência para lidar com a crise

A temporada de assembleias do cooperativismo financeiro está chegando ao fim. Singulares, centrais e confederações estão terminando de prestar contas a quem mais importa: o cooperado — verdadeiro dono do nosso negócio. Contas aprovadas e novos rumos definidos, é chegada a hora de divulgar esses resultados para toda a sociedade e mercado financeiro.

Como presidente do Fundo Garantidor do Cooperativismo de Crédito (FGCoop) e cooperativista que sou, com muita alegria constatei que o setor superou as expectativas e atravessou o primeiro ano da pandemia de Covid-19 crescendo acima da média do mercado financeiro, tanto na captação de depósitos quanto na oferta de crédito. Com isso, o volume de depósitos garantidos pelo FGCoop alcançou os R$ 252,5 bilhões, crescimento de 46,70% em relação a 2019.

Em 2020, as cooperativas provaram novamente — como fizeram na crise financeira de 2008 — que nosso modelo de negócio fica ainda mais forte em tempos de crise. Fato, aliás, reconhecido pela Organização das Nações Unidas, que declarou 2012 o Ano Internacional das Cooperativas, justamente por reconhecer o papel fundamental que essas organizações tiveram na recuperação das economias de seus respectivos países após a crise financeira global da primeira década do novo milênio.

Essa percepção é corroborada por um estudo da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), divulgado em 2020, que revela: cada R$ 1 em crédito concedido pelas cooperativas gera R$ 2,45 para a economia brasileira. Para chegar a essa conclusão, a fundação avaliou dados econômicos de todos os municípios brasileiros e concluiu que, nas regiões onde há uma ou mais cooperativas, o impacto agregado no nível do PIB brasileiro foi de mais R$ 48 bilhões – com o ingresso das cooperativas que ocorreu de 2006 até 2016 -, além da geração de 278 mil postos de trabalho e abertura de 2 novas empresas a cada grupo de 100 mil habitantes. Com isso, o cooperativismo incrementa o Produto Interno Bruto (PIB) per capita desses municípios em 5,6%, cria 6,2% mais vagas de trabalho formal e aumenta o número de estabelecimentos comerciais em 15,7%, estimulando o empreendedorismo local.

Crédito responsável

O compromisso do cooperativismo de crédito com as pessoas ficou ainda mais perceptível em 2020. Ao longo do ano, vimos bancos comerciais cortarem linhas de crédito, com medo do risco associado ao desemprego e aos impactos negativos da pandemia em nossa economia. Nas cooperativas o movimento foi justamente o contrário! Imbuídos da filosofia de cuidar bem das pessoas, as cooperativas ampliaram o acesso ao crédito e, ainda assim, mantiveram seus índices de inadimplência abaixo dos registrados pelos bancos comerciais. Qual o segredo dessa equação? Crédito responsável, desenhado sob medida para o perfil de cada associado.

Na prática, quando o associado procura uma cooperativa, ela tem a obrigação (a palavra é essa mesmo) de fazer o melhor por ele. Os gerentes das cooperativas não estão preocupados em trazer rentabilidade para a instituição, mas em oferecer produtos adequados às necessidades e ao perfil financeiro de cada associado, seja ele pessoa física ou jurídica. Após fazer uma análise minuciosa do que o cooperado precisa, eles encontram as melhores taxas, prazos de pagamento e opções de crédito. Um tratamento humano, ético e transparente que fideliza o cooperado, que faz de tudo para honrar seus compromissos e manter um relacionamento de longo prazo conosco.

Durante a pandemia, nada disso mudou. Tanto que 20% das operações do Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe) foram liberadas por cooperativas financeiras. Os dados são do Portal do Empreendedor.

Também houve um aumento de depósitos nas cooperativas. Juntas, elas captaram R$ 209,56 bilhões em depósitos (excluídos Recursos de Aceites e Emissão de Títulos, exemplo da LCA e LCI), uma performance 46,81% superior à registrada em 2019. Já os bancos registraram aumento de 38,87% em igual período. Um sinal inequívoco de que o brasileiro considera o cooperativismo um porto seguro para o seu dinheiro.

Expansão “fisital”

Nos últimos dois anos, as cooperativas de crédito abriram 1.095 pontos de atendimentos em todo o Brasil. São 7.238 unidades de atendimento, que hoje representam a maior rede de atendimento financeiro do Brasil. Já os bancos comerciais, fecharam 2.368 pontos em igual período.

Mesmo durante a pandemia, foram abertas 408 novas unidades de atendimento. A expectativa, para 2021, é de inaugurar outras 400.

Além de abrir novos pontos de atendimento, as cooperativas também estão ampliando seu quadro de pessoal. Enquanto as agências bancárias têm uma média de três gerentes, uma cooperativa tem o triplo de pessoas na mesma função, com o objetivo de atender melhor aos cooperados. Hoje, o setor emprega 71,7 mil profissionais, gerando emprego e renda para milhares de famílias brasileiras.

Outro movimento importante, em 2020, foi a de abertura de contas digitais e novos canais de atendimento para os cooperados. Apostamos em um crescimento “fisital” (físico + digital) da estrutura de atendimento ao cooperado. Uma estratégia benéfica tanto para as pessoas que buscam a comodidade de resolver seus problemas financeiros em qualquer hora e lugar, com total autonomia, quanto quem gosta de contar com uma opinião especializada na hora de tomar decisões que envolvam dinheiro.

Cidadania
Além de colaborar para o desenvolvimento da economia, as cooperativas financeiras deram lição de cidadania em 2020, cuidando da saúde física e financeira de seus associados e de milhares de outros brasileiros.

Logo no começo da pandemia, o setor ampliou a oferta de crédito aos cooperados, negociou prazos de pagamento e desenvolveu novos canais de atendimento digital, permitindo que eles cuidassem de sua vida financeira sem sair de casa — atitude que poderia colocar a saúde deles (e a de outras pessoas) em risco. Atuando dessa maneira, ajudamos a amenizar os impactos da pandemia para eles.

Paralelamente, houve um esforço conjunto das cooperativas financeiras para cuidar da saúde das comunidades nas quais estão inseridas, por meio de doações de leitos, respiradores, máscaras, álcool gel e alimentos — itens de primeira necessidade em tempos de pandemia. O material foi entregue em hospitais, unidades de pronto-atendimento e instituições de apoio às pessoas em situação de risco, atendendo às demandas de milhares de municípios brasileiros, cada vez mais pressionados pelos impactos do novo coronavírus.

Outro público que mereceu cuidado especial, em 2020, foram os dirigentes e colaboradores das singulares, centrais, bancos cooperativos e instituições ligadas ao Sistema Nacional de Crédito Cooperativo, assim como nós, aqui do FGCoop. Afinal, nosso modelo de negócios coloca as pessoas sempre em primeiro lugar. E nada mais justo do que zelar pela saúde dos profissionais que empregam seu talento para fazer o cooperativismo financeiro crescer.

Em todo o SNCC, foram criadas condições para que eles pudessem trabalhar em segurança, seja em home office ou presencialmente — após a flexibilização do isolamento social. O fato é: quem teve de sair de casa encontrou, no ambiente de trabalho, todas as medidas de segurança recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Desafios

Para o FGCoop, 2020 foi um ano desafiador, mas fomos resilientes. Atravessamos bem o período, cumprindo as metas estabelecidas em nosso planejamento estratégico, aperfeiçoando os serviços de monitoramento, assistência financeira e garantia de depósitos.

Realizamos três operações de assistência financeira, focadas na incorporação de cooperativas — movimento tem ajudado a fortalecer o setor, prevenindo processos de garantia de depósitos. Aliás, vale destacar: apesar da crise financeira provocada pelo novo coronavírus nenhuma cooperativa teve suas atividades descontinuadas em 2020.

Por fim, como presidente do Fundo, gostaria de destacar que os verdadeiros protagonistas do crescimento sustentável do cooperativismo financeiro são as cooperativas e os sistemas organizados. São eles os agentes capazes de fazer o setor continuar a crescer com segurança e a ganhar o destaque que merece no Brasil. Nós, do FGCoop, estamos nos bastidores, atuando preventivamente pelo fortalecimento, solidez e crescimento do setor.

João Carlos Spenthof

João Carlos Spenthof é presidente da Central Sicredi MT/PA/RO