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O cooperativismo e a equidade de gênero

Uma das discussões mais imperativas e contemporâneas do mundo no momento, a equidade de gênero é também um ponto de foco para as cooperativas. As mulheres representam hoje quatro em cada 10 cooperados, conforme o Anuário do Cooperativismo Brasileiro, e há espaço para ampliar a participação feminina tanto no quadro de associados quanto na gestão das cooperativas. Buscar a igualdade é inclusive uma das prioridades do setor definidas há dois anos no 14º Congresso Brasileiro do Cooperativismo.

Para você ter uma ideia do quanto esta é uma pauta presente, de acordo com o Banco Mundial apenas Dinamarca, França, Letônia, Luxemburgo e Suécia podem ser considerados países onde não há mais desigualdade de gênero quando o assunto são questões financeiras e legais. O mesmo estudo indica que as mulheres têm aproximadamente 75% dos direitos que os homens possuem no mundo todo. De acordo com um relatório de 2020 do Fórum Econômico Mundial, no ritmo atual seriam necessários 99,5 anos para que a igualdade de gênero fosse alcançada no mundo.

É interessante observar que o respeito à igualdade de gênero mora nas raízes do cooperativismo. A Sociedade Equitativa dos Pioneiros de Rochdale, na Inglaterra, aquela considerada a primeira cooperativa moderna, aceitava já na metade do século 19 a associação de mulheres na organização. E sempre vale lembrar que naquele momento histórico elas tinham participação muito limitada nos direitos civis. 

Aqui no Brasil, as ações do padre Theodor Amstad, fundador da primeira cooperativa de crédito do país, em 1902, também traziam notícias do futuro. O sacerdote estimulava a participação feminina nas associações, em uma época em que a palavra feminismo não exista no vocabulário das comunidades e que o direito das mulheres ao voto ainda demoraria 30 anos para ser declarado no Brasil.

Os dados sobre a divisão de gêneros no quadro social das cooperativas brasileiras mostram que a participação feminina tem crescido ao longo dos anos, mas o cenário ainda é predominantemente masculino: 62% dos cooperados são homens. A realidade também é muito semelhante quando olhamos para os trabalhadores empregados pelo cooperativismo. As organizações têm criado comissões formais para garantir que a equidade de gênero, em todos os níveis hierárquicos das cooperativas, seja uma pauta constante: na Aliança Cooperativa Internacional, mulheres de todo o mundo formam o Comitê de Equidade de Gênero, que se conecta a comitês regionais.

Sei que faço apenas um recorte hiperlocal dentro de um cenário ainda em transformação, mas na cooperativa de crédito onde atuo, a Unicred União, com atuação em Santa Catarina e no Paraná, as mulheres são 70% da equipe e ocupam 60% dos cargos gerenciais. Ou seja, estamos trabalhando para tornar mais justa e igualitária a participação feminina no mercado de trabalho, como já se desenhava lá nos primórdios do cooperativismo.

O cooperativismo tem sido desde as primeiras entidades uma ferramenta para a inclusão social, ao contemplar grupos normalmente à margem do protagonismo econômico. Mas precisamos avançar. Quando o poder de compra, de decisão e a autonomia são compartilhados com mais e mais pessoas, aí sim pode-se falar de equidade.

Marcelo Vieira Martins

CEO da Unicred União e autor do livro “Feito à mão – As pessoas no centro das transformações”