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Flexibilidade, a alma do cooperativismo

Além de craques e salas repletas de troféus, você sabe o que existe em comum entre o Real Madrid e o Barcelona, as duas equipes de futebol mais valiosas do mundo pelo ranking da Revista Forbes? Ambas são geridas como cooperativas. O modelo é adotado por outros clubes europeus, como o Bayern de Munique, e tem se mostrado sustentável e eficiente. Como você já sabe, em uma cooperativa cada cooperado é o dono do negócio. E times de futebol que pertencem aos seus torcedores tendem a criar uma conexão maior com seus fãs e suas comunidades. Quando geridos como cooperativas, a relação dos membros associados com o time é mais participativa do que o modelo brasileiro de sócio-torcedor, por exemplo.

Mas o grande mérito da proposta cooperativista que quero destacar aqui é que ela serve aos mais variados interesses da sociedade e se adapta a uma gama de projetos que impressiona. Do time de futebol à geração de energia elétrica. Dos serviços financeiros à colheita de açaí. É sobre a flexibilidade do cooperativismo que estamos tratando. Refiro-me à capacidade que o modelo tem de ser a melhor resposta coletiva para os mais diversos cenários. De acordo com a legislação brasileira, 20 pessoas unidas por um interesse legítimo e viável já podem formar uma cooperativa – quando é do ramo trabalho ou produção, é preciso apenas sete associados para começar.

Como uma entidade que serve às pessoas, e não ao capital em primeiro lugar, é preciso deixar claro que uma cooperativa de êxito é aquela que sana as necessidades de uma comunidade, melhora a qualidade de vida dos envolvidos e está financeiramente saudável. Portanto, ao falar de sucesso podemos certamente citar o grupo francês Crédit Agricole, a maior cooperativa do mundo em faturamento (US$ 89,1 bilhões em 2018), fundada no final do século 19 e uma das maiores instituições financeiras da Europa. Mas podemos olhar também para iniciativas como a Amazonbai, cooperativa do Amapá de extração de açaí que reúne cerca de 100 produtores de comunidades ribeirinhas, com foco em boas práticas na segurança do cooperado e no cuidado com a floresta – hoje responsável pelo único açaí do mundo a receber o selo do Forest Stewardship Council (FSC), certificado internacional de manejo florestal sustentável.

Há um sem-número de casos interessantes pelo mundo que usam o cooperativismo para solucionar as mais diversas questões. Quando um grupo de agricultores de Benedito Novo, no interior de Santa Catarina, se viu obrigado a beber cerveja quente em um dia de verão porque ainda não havia energia elétrica na localidade onde moravam, no fim dos anos 1950, a solução que se acendeu foi o cooperativismo. Em 1960 formaram uma cooperativa para construir uma usina geradora de energia movida a água, que não só passou a gelar cerveja, mas levou eletricidade a famílias na zona rural. Sessenta anos depois, a Cooperativa de Energia Elétrica Santa Maria (Ceesam) é formada por três Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) e é a maior cooperativa de geração de energia de Santa Catarina. O grupo nasceu para preencher uma lacuna deixada pelo poder público, o que costuma ser outra característica das cooperativas. A Ceesam mantém o olhar para a comunidade, em projetos como a instalação de áreas de lazer em bairros de Benedito Novo e em investimentos no hospital da cidade.

Esses exemplos ilustram como gerações, países e estilos de vida completamente diferentes encontraram um ponto de convergência para resolver questões muito particulares. O cooperativismo conecta vidas que às vezes nunca se cruzaram de fato, mas é como se jogassem em um mesmo grande time. Meu desejo é que o cooperativismo seja uma resposta cada vez mais usada para o tanto de situações sociais e econômicas que ainda podemos aperfeiçoar neste mundo. Basta ter a flexibilidade para conjugar o verbo cooperar.

Marcelo Vieira Martins

CEO da Unicred União e autor do livro “Feito à mão – As pessoas no centro das transformações”