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O coop é pop?

Muito se fala que o maior concorrente do cooperativismo de crédito é o desconhecimento. É uma verdade. Este modelo de negócio, que se difere dos bancos tradicionais, ainda tem pouca participação de mercado, algo em torno de 10%, combinado com o fato de ainda ter uma presença mais tímida em centros urbanos maiores, fatores que combinados, ampliam o seu desconhecimento.

Some-se a isto investimentos em marketing ainda menores que dos bancos, e dispersos por sistemas e bandeiras diferentes, que algumas vezes mais confundem que ajudam a esclarecer do que se tratam cooperativas de crédito.

E ainda podemos acrescentar o fato de termos várias bandeiras, que se sobrepõem em várias cidades grandes, médias e até pequenas, gerando confusão na população sobre o que é cada cooperativa, se são do mesmo grupo, se possuem políticas iguais.

Todos estes são motivos reais e todos conhecidos da maioria das lideranças do movimento cooperativo brasileiro.

Mas trago pra reflexão outro fator, que ao meu ver, potencializa os fatores acima: a nossa comunicação “século XX” num mundo digital, veloz e pop do século XXI.

Somos um modelo de negócios extremamente moderno – colaboração, co criação, usuário no centro, consciência nos negócios sempre fez parte de nosso DNA– mas que ou não comunicamos, ou quando comunicamos, o fazemos com linguagem ultrapassada.

Sobras? Quem quer ficar com sobras? Não é melhor partilhar resultados? Ainda mais se conseguirmos comunicar que nossos resultados são íntegros, com métricas econômicas mas também sociais, e carregados de integridade, onde a ética conduz trocas justas com nossos associados?

Mas temos como comunicar diferente?
Modernizar nossa linguagem?
Adotar expressões modernas? Deixar o cooperativismo mais pop?

Não sei exatamente como fazer, pois não sou especialista em marketing. Mas posso dar algumas pistas a partir de minha vivência em instituição financeira de mais de 30 anos, citando algumas expressões que são extremamente modernas no mundo dos negócios. Na sua maioria são expressões inglesas (que emprestam uma aura especial pra algo muitas vezes trivial), mas que representam práticas de gestão há muito tempo praticadas pelo cooperativismo de crédito. E não porque fazem parte de um modelo de gestão, e sim porque compõem ações que materializam um ideário particular e muito diferente do modelo de negócio dos bancos, concorrentes diretos das cooperativas de crédito, ou de outras empresas privadas de todos os segmentos.

Comecemos com o cashback. Tem sido uma prática de vantagem financeira cada vez mais empregada. Lembrar que cooperativas devolvem parte de seu resultado para seus associados, na forma de distribuição de resultados, há décadas.

Depois temos os negócios em Plataforma, um modelo disruptivo de negócio, que conecta o ofertante e o demandante numa base tecnológica, permitindo nascer negócios como Uber e Airbnb. Na prática, já existe este modelo de negócios no Brasil desde 1902, quando se criou a cooperativa de crédito mais antiga da América Latina e conectou numa base física, os cidadãos com oferta de recurso e na outra extremidade, os cidadãos demandantes de recursos.

Com uma vantagem brutal: eliminando o intermediário, o que facilita a troca justa entre as pessoas.

Indo adiante, muito se fala ultimamente sobre Economia compartilhada. Que bom que o mundo descobriu que compartilhar não diminui, mas sim, amplia nosso poder. Estamos trocando o mindset da escassez pelo da abundância, reforçando o ecossistema como uma rede de proteção onde todos ganham e onde a prosperidade de todos faz mais sentido que o crescimento de alguns. As cooperativas são organizações naturalmente conectadas com seus ecossistemas e por conta disto, desde sempre compartilhamos recursos e conhecimento, ajudando a gerar e reter riqueza no local.

Chegamos no Crowdfunding, cada vez mais popular, que se trata do financiamento coletivo de projetos. Mas ora, isto é a base central do modelo de negócios de uma cooperativa de crédito. Afinal de contas, nas cooperativas a multidão superavitária é a fonte de funding para que a cooperativa financie projetos de associados que não tem o recurso mas tem a ideia, e também do associado que tem o recurso mas busca fontes mais baratas de financiamento.

E finalizando, tem o Crownsourcing, que nada mais é que a cocriação, a colaboração na construção de algo, e que usa a força da inteligência coletiva, sendo geralmente uma alavanca da inovação, mas também de movimentos sociais. Exemplo disto são as assembleias de associados, onde de forma ordenada milhares de associados tomam decisões estratégicas sobre os rumos de suas cooperativa de forma democrática, onde cada associado vale um voto.

Estes exemplos demonstram a atualidade de nosso modelo de negócios. Nunca as cooperativas estiveram tão alinhadas com o pensamento evolutivo que acredita na nova economia. Não há nova economia sem colaboração. Um novo mundo exige novos modelos de negócios, e o cooperativismo, mesmo com mais de 170 anos de criação, é muito atual, e pode ser influência positiva pra que os negócios sejam mais conscientes estimulando uma visão sistêmica e responsável sobre todo o ecossistema. Onde todos deveriam ganhar sua cota justa: empresa, clientes, colaboradores, fornecedores, governos, parceiros e meio ambiente.

Mas para que possamos exercer de fato essa liderança precisamos antes sermos mais conhecidos e reconhecidos, tornando o cooperativismo mais popular.

O coop ainda não é, mas tem tudo pra ser pop.

Solon Stapassola Stahl

Diretor Executivo da Sicredi Pioneira RS