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Ascenção e morte de uma cooperativa

Toda cooperativa nasce quando um grupo de idealistas resolve se unir para conquistar um propósito comum e pode morrer quando seu sucesso a leva a almejar ser uma empresa ordinária, ao invés de uma cooperativa extraordinária. Sua ascensão e declínio percorre uma trilha obstruída com resistências, atitudes sabotadoras e obstáculos econômicos que bons líderes devem conhecer para vencê-los.

Imaginemos um avião percorrendo a pista para decolar; toda a energia é concentrada na força dos motores, então ele sobe. Os fundadores de uma cooperativa investem no relacionamento com futuros parceiros. São sinceros quanto aos possíveis riscos, porém neste momento os impulsos são de compromisso com uma causa, o interesse pelo bem comum, as vantagens coletivas superando as individuais. Sobras, rentabilidade, ingressos são considerados meios necessários, mas não absolutas finalidades do empreendimento.  Os princípios presentes são de Adesão Livre e Voluntária e Participação Econômica; a mais importante competência das lideranças é entender as aspirações dos cooperados para que adiram.

A cooperativa cresce e os indicadores são o aumento do número de associados, maior volume de ingressos e até algumas sobras que permitem investimentos em equipamentos, quem sabe uma sede mais confortável, contratar um quadro de executivos para as tarefas administrativas. O entusiasmo é grande e o impulso estratégico é não se preocupar com os riscos, acreditam que o fluxo de caixa se resolverá por si mesmo. Os fundadores são vistos como heroicos desbravadores, adotam estilos carismáticos em sua gestão e em seu relacionamento com colaboradores e associados; muitas vezes confundem o princípio de Gestão Democrática com atitudes paternalistas.

A crise do crescimento acontece quando não bastam os impulsos empreendedores. Assim como os adolescentes ainda têm que aprender a administrar seu corpo, suas emoções e equilibrar seus sonhos com os limites da realidade, os novos executivos entram em conflito com os veteranos propondo estratégias restritas a aumentar os volumes e preços dos produtos e serviços, reduzir os cooperados a meros fregueses que geram ingressos, implantar tecnologias redutoras dos custos e tratar os colaboradores como objetos de custo e não pessoas produtoras das riquezas. Os fundadores podem ser tidos como peças obsoletas a serem substituídas.

As planilhas ensinam que o sucesso está em uma equação simples: para ter lucro é preciso aumentar a receita e reduzir as despesas. Tudo medido, controlado; as reuniões tratam das planilhas e não da essência do negócio cooperativo. O mercado é mais complexo porque é feito de gente, não de números. São pessoas que fornecem, pessoas que produzem, pessoas que compram. Negócios são feitos com pessoas, pessoas têm sentimentos, pessoas se relacionam. Os fundadores sabiam desde o início: a equação que funciona é ter cooperados fidelizados e colaboradores comprometidos, ingressos e sobras são decorrências.

Legalmente uma cooperativa não pode falir, porém morre quando esquece que para ter Autonomia e Independência deve se gerir não pelas velhas – e estas sim superadas – estratégias que ignoram o Interesse pela Comunidade e enxergam as demais como concorrentes sem se importar com as vantagens da Intercooperação. Os colaboradores – gestores e empregados – também fazem parte da comunidade de uma cooperativa. Kant em um dos Imperativos Categóricos ensinava que “as pessoas não são recursos, não são meios; são a finalidade última em benefício da humanidade”.

Nas estradas romanas havia placas em formato de cruzes indicando os caminhos. As cooperativas nestes tempos tão incertos e turbulentos têm que tomar uma decisão crucial: estagnar na velha economia com suas planilhas, ou crescer na nova economia investindo nas relações interpessoais. O investimento deve ser em pessoas, conforme o princípio de Educação, Formação e Informação.  Esta informação não é apenas técnica e a formação não se limita a novas habilidades; é preciso educar resgatando as raízes da cultura cooperativa para que se busque a prosperidade de forma ética e humana, como sabiam os fundadores.

Mário Donadio

Sociólogo, Educador na Metanoia, professor de pós-graduação em Psicologia Organizacional e do Trabalho na Universidade Mackenzie