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Cooperar e transformar

Em tempos de crise, a sociedade costuma buscar formas alternativas para se organizar e resolver os seus problemas. Com apoio ou não de instituições e do setor público. O cooperativismo tem sempre se apresentado como uma boa opção para essas ações, em momentos como vivemos hoje. Testemunhei esse fenômeno quando morei e trabalhei na África e acompanho com satisfação o crescimento do setor, aqui no Brasil.

É sempre bom lembrar que o cooperativismo é um instrumento próprio de organização da sociedade. A lógica é conseguir ajuda mútua em torno de um problema comum, que passa a ser enfrentado, e resolvido, com cooperação e parceria. Essa é a lógica do movimento, que surgiu há cerca de 200 anos na Europa e que já está há mais de 100 em nosso país.

No Brasil, a iniciativa ficou conhecida no meio rural. Os produtores se reuniam, inicialmente, para comprar insumos, como sementes e adubos. Também para armazenar e comercializar a produção. Esses mesmos produtores perceberam que não precisavam depender do dinheiro suado e caro dos empréstimos para a plantação. E criaram cooperativas de crédito, que já dominam 11% do mercado brasileiro com crescimento ano a ano. Estruturas que também conseguiram crescer quando foram impostas restrições de acesso ao crédito para o agronegócio brasileiro.

Daí, surgiram outras estruturas. As cooperativas de crédito chegaram, primeiro, a categorias específicas, como engenheiros e médicos, por exemplo. Os médicos e cirurgiões-dentistas passaram a organizar cooperativas de serviços. Servidores públicos se uniram em torno de cooperativas de consumo. Aqui mesmo, em Goiânia, tivemos a experiência do transporte alternativo que foi incorporada ao serviço púbico, onde a cooperativa formada na época atua normalmente nas linhas convencionais nos dias atuais.

O caminho me parece ser dos mais promissores. Cooperativas existem para estimular a livre e voluntária participação das pessoas, que passam a ter o poder de participar de reuniões e da própria gestão, definindo os destinos da estrutura e participando ativamente dos resultados

No caso das cooperativas de crédito, acontece uma inversão difícil de imaginar. A pessoa continua tendo acesso aos mesmos produtos oferecidos por qualquer instituição financeira tradicional. Através de assembleias, participa das decisões da cooperativa. E, no final do exercício, ao invés de pagar mais taxas, tem participação no resultado financeiro. Inversão total.

Além disso, pelo espírito comunitário desenvolvido desde a sua conceituação, as cooperativas atuam em projetos de participação na vida social do local onde estão inseridas.

É muito positivo a participação ativa, voluntária e livre, com a possibilidade de união de pessoas e setores. Cooperar para construir, consumir e transformar. Esse é um legado que é construído diariamente e que merece um olhar diferenciado das pessoas e da sociedade. Participar desse processo é um bom caminho.

Artigo publicado no jornal O Hoje do dia 19/10/2021

 

Rogério Cruz

Prefeito de Goiânia (GO)