"Diversidade gera inovação e resultados sustentáveis", afirma Tania Zanella sobre mulheres na agricultura
08/01/2026
Uma em cada três mulheres trabalhadoras no mundo atua em sistemas agroalimentares, segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Além de produzirem alimentos, elas protegem o meio ambiente e impulsionam o desenvolvimento sustentável, papéis que terão destaque global durante o Ano Internacional da Mulher Agricultora, declarado pela ONU para 2026.
No cooperativismo brasileiro, essa agenda tem uma representante de destaque: a presidente executiva do Sistema OCB, Tania Zanella, que vem fortalecendo o protagonismo feminino no setor e ampliando o diálogo sobre a importância das mulheres para a inovação, a competitividade e o futuro das cooperativas.
De acordo com a ONU, as mulheres agricultoras mobilizam comunidades, influenciam políticas públicas e constroem pontes entre a ação local e o progresso global. Em muitos países, elas têm liderado movimentos coletivos em prol da igualdade, da justiça climática e da transformação social. Apesar disso, muitas delas acabam tendo seu potencial limitado pela desigualdade de recursos, financiamento e educação, evidenciando a necessidade de fortalecimento desse grupo como estratégia para o progresso global.
Em entrevista ao Sistema OCB, Tania Zanella destaca o potencial das mulheres no cooperativismo agropecuário – ramo em que representam 19,2% dos cooperados – e o papel que exercem para tornar o segmento cada vez mais relevante para a economia e para a construção de um futuro mais sustentável.
“Quando uma cooperativa valoriza a mulher agricultora, fortalece todo o negócio. No agro, um setor onde tudo muda rápido, a diversidade na gestão amplia a visão estratégica e a capacidade de resposta”, afirma.
Além da presidência executiva do Sistema OCB, Tania lidera o Instituto Pensar Agropecuária (IPA) e está entre as “100 Mulheres Mais Poderosas do Agronegócio”, segundo ranking da Forbes.
Leia a entrevista completa:
Sistema OCB: No momento em que a ONU celebra o Ano Internacional da Mulher Agricultora, qual é o cenário da participação feminina no cooperativismo agropecuário brasileiro?
Tania Zanella: As mulheres têm um papel cada vez mais relevante nas cooperativas do agro. Elas não estão apenas como cooperadas ou colaboradoras, mas assumem funções de liderança, gestão e tomada de decisão. Isso é transformador para o movimento cooperativista. Segundo o Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2025, já temos cerca de 41% de mulheres entre os cooperados no Brasil. Esse dado mostra que avançamos muito, mas também revela que ainda temos desafios importantes. Há reconhecimento e iniciativas para ampliar essa participação. Porém, quando olhamos para cargos de alta gestão e governança, a presença feminina ainda é menor do que gostaríamos, especialmente no agro, que historicamente é um setor masculino. Ou seja: estamos no caminho certo, mas precisamos acelerar para garantir mais espaço e oportunidades para a mulher agricultora.
Como começou sua relação com o ramo agropecuário?
Minha história com o agro começou na infância, em Santa Catarina, um estado com forte tradição cooperativista. Cresci vendo a força da agricultura e da cooperação para transformar comunidades. O agro não é só produção de alimentos: é geração de emprego, desenvolvimento regional e soberania alimentar. É um setor que conecta o Brasil ao mundo e que tem no cooperativismo um modelo sustentável e inclusivo.
Em 2008, essa paixão virou missão: há 17 anos trabalho pelo fortalecimento do cooperativismo brasileiro, porque acredito que o nosso movimento tem histórias reais de transformação por meio do trabalho, geração de renda e criação de oportunidades. Passei por diferentes áreas na Casa do Cooperativismo, inclusive fui a primeira mulher a ocupar cargos estratégicos. Essa trajetória me deu uma visão ampla: da base cooperada às políticas públicas, da governança às relações institucionais. Fui a primeira mulher a ocupar cargos como gerente-geral, superintendente e, hoje, presidente executiva do Sistema OCB. Isso reforça meu compromisso: abrir caminhos e mostrar que é possível.
Como as cooperativas agropecuárias podem fortalecer a participação das mulheres em suas estruturas?
Existem ações práticas que fazem diferença e que já estão sendo incentivadas pelo Sistema OCB. Quando a cooperativa adota essas medidas, ela não só valoriza a mulher agricultora, mas fortalece todo o negócio. Destacamos a importância dos Comitês de Mulheres, que criam espaços formais de atuação com metas e voz ativa. Para isso, disponibilizamos o Manual de Implementação de Comitês de Mulheres nas Cooperativas. Além disso, incentivamos a capacitação e liderança, que significa investir em programas voltados para mulheres, com temas como governança, inovação, negociação e articulação.
Temos também as políticas de equidade, que garantem regras claras para ampliar a participação feminina em conselhos e diretorias, oferecer mentorias e apoiar a conciliação entre trabalho e vida familiar. Destacamos ainda a cultura inclusiva, que mostra que a diversidade não é só imagem, é estratégia. Como sempre digo: diversidade gera inovação e resultados sustentáveis. Por fim, a intercooperação, que cria redes de apoio entre cooperativas para compartilhar boas práticas e dar visibilidade ao protagonismo feminino. O movimento Elas pelo Coop é um exemplo disso.
Qual é o impacto positivo da promoção de ações para a equidade de gênero dentro das cooperativas?
Equidade de gênero não é só uma causa social: é uma vantagem competitiva para o cooperativismo. Por isso mesmo, os impactos são claros e estratégicos. Para começar, cito uma governança mais robusta, pois a diversidade traz diferentes perspectivas e melhora a qualidade das decisões. Também temos mais inovação e competitividade, pois equipes diversas pensam diferente e criam soluções mais completas.
Ações para equidade de gênero também fortalecem a cultura, pois promover mulheres mostra que a cooperativa valoriza meritocracia e justiça, o que atrai e retém talentos. Essas práticas geram credibilidade social porque questões ESG hoje são fundamentais. Cooperativas que praticam equidade ganham relevância e confiança. Para finalizar, destaco a resiliência e sustentabilidade, já que no agro, onde tudo muda rápido, a diversidade na gestão amplia a visão estratégica e a capacidade de resposta.
Como é para você ser uma inspiração para as mulheres cooperativistas?
É uma honra e uma responsabilidade que me motivam todos os dias. Acredito que inspirar não é estar distante, é caminhar junto. É ouvir, apoiar, compartilhar experiências e celebrar conquistas. Cada mulher que assume um papel de liderança fortalece todo o sistema. Iniciativas como o movimento Elas pelo Coop e os comitês de mulheres são instrumentos para transformar essa inspiração em prática. Porque não se trata de uma jornada individual, mas coletiva.
Sistema OCB