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Cooperativas e migração

Um dos problemas contemporâneos de Santa Catarina e da maioria dos Estados da Federação brasileira continua sendo a migração regional. Esse fenômeno está ancorado em dois processos: a migração intrarregional e a migração em direção ao litoral.

A migração intrarregional se caracteriza pelo esvaziamento dos campos em direção às cidades-pólos. É o êxodo rural, que vem sendo estudado e diagnosticado com mais atenção nos últimos 50 anos. É de origem multicausal. O fracasso econômico da atividade primária é freqüentemente apontado como causa onipresente. A renda dos produtores e empresários rurais é anulada quando intempéries (estiagens, cheias, granizo), pragas ou doenças devastam lavouras e plantéis; ou quando as políticas macroeconômicas aniquilam a competitividade ou achatam preços; ou, ainda, quando a política agrícola se resume a gestão de crédito rural sem foco estratégico, sem visão global e sem avaliações que somente a inteligência comercial do agronegócio pode oferecer.

A ausência de conforto e de recursos também vergasta as populações rurais, geralmente carentes de assistência à saúde, educação e cultura e demais serviços públicos. Alia-se a esse quadro perverso os constantes sobressaltos causados pelos movimentos – de ONGs ou do próprio governo – em prol da expansão das áreas indígenas, da arregimentação de terras para reforma agrária, da criação de parques nacionais e corredores ecológicos para refúgio da vida silvestre, além da crescente, complexa e muitas vezes impraticável normatização fiscal, trabalhista e, principalmente, ambiental. Todas essas variáveis ameaçam a propriedade e angustiam as famílias rurais.

O êxodo rural esvazia os campos e enche os pólos urbanos regionais, agudizando aqueles problemas que economistas, assistentes sociais e administradores estão cansados de analisar e diagnosticar. A periferia cresce em ritmo acelerado e desumano, as demandas por habitação popular, vagas escolares, leitos hospitalares e postos de trabalho explodem, os serviços públicos entram em colapso e a qualidade de vida das cidades despenca.

O deslocamento de populações de importantes regiões do hinterland catarinense para o litoral é outra face desse problema. Se a migração intrarregional transfere pessoas para as cidades interioranas, a incessante litoralização transfere capitais humanos e financeiros para as cidades da orla. Os investimentos crescem e se multiplicam na região litorânea, especialmente após o início de duplicação da BR 101. Ali se concentram as populações e ali se direcionam importantes projetos de investimentos porque, afinal, ali se encontra um mercado consumidor em contínua expansão. É um mecanismo perverso: as pessoas buscam o litoral porque há hipoteticamente maiores chances de trabalho e emprego e, os investidores, porque há mercado e proximidade com metrópoles, portos marítimos etc.

Uma só palavra pode resumir tudo: infra-estrutura. É a insuficiente infra-estrutura que move as populações rurais para as cidades e as populações de cidades médias e pequenas para o litoral. Faltam portos, aeroportos, armazéns, rodovias, ferrovias, estações aduaneiras interiores, hidrovias, hospitais, centros culturais e centros de formação de excelência para reter no interior as populações – especialmente os jovens – e atrair os capitais financeiros e tecnológicos capazes de fomentar um ciclo duradouro de crescimento. Com exceção de municípios-pólos ou micropólos, os demais registram redução populacional nas áreas urbanas e rurais reiteradamente aferidas pelo IBGE. Casos como de Chapecó, Concórdia e Maravilha – onde as empresas, por absoluta falta de mão-de-obra local, buscam diariamente trabalhadores fixos que moram até 200 quilômetros distantes – são emblemáticos ao revelar os efeitos da nossa patológica ocupação geográfica.

No contraponto desse panorama figuram as cooperativas catarinenses, sustentando grande parcela da infra-estruturação produtiva existente e que ainda retém as populações em suas regiões. A importância das cooperativas catarinenses pode ser avaliada, em seu conjunto, por fatores econômicos e sociológicos: juntas, faturaram R$ 9,1 bilhões de reais em 2007, montante 20,15% superior ao exercício anterior, de acordo com levantamento da Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina (Ocesc). Pesquisa encomendada pelo sistema cooperativista nacional comprovou que nos municípios onde atuam as cooperativas, o índice de desenvolvimento humano é mais elevado do que aqueles em que não há esse tipo de atividade. Agora sabemos que, onde há cooperativismo, há uma estrutura de serviços, de assistência e de produção que permeia grande parte do tecido social: as 256 cooperativas dos ramos agropecuário, consumo, crédito, educacional, especial, habitacional, infra-estrutura, mineral, produção, saúde, trabalho e transporte representam 776.749 famílias associadas, o que corresponde a mais de 1/3 da população estadual. Elas geram grande riqueza econômica e proporcionam uma vida digna e de qualidade em todas as regiões catarinenses, especialmente nas zonas não-litorâneas.

Marcos A. Bedin

Jornalista

 

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